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BTB 54: Lembrando de Dick Ronald

Uma pessoa única. 9 de novembro de 1944–16 de dezembro de 2020

— Paul Iarocci


Conheci Dick Ronald em 1997. Ele dirigia o departamento de vendas dos Estados Unidos e era meu chefe. Ele basicamente gerenciava um bando de crianças e nos ensinava a fazer nosso trabalho. Ele era introspectivo e discreto, então, quando dizia algo, nós, as crianças do escritório, prestávamos atenção.

Antes dos 12 anos em que Dick trabalhou para a Tigercat, ele trabalhou por 27 anos no setor de equipamentos pesados da Clark, VME e Valmet. Seu foco era principalmente o lado florestal desses negócios, principalmente o desenvolvimento de produtos para a linha de skidder Ranger. Alguns anos atrás, eu perguntei ao Dick como ele tinha começado a trabalhar na Tigercat. Ele me respondeu: “O Tony (Iarocci) estava procurando alguém e acho que alguns distribuidores que trabalhavam com ele e me conheciam bem me indicaram para o trabalho.

Dick começou sua carreira na década de 70, quando a extração de madeira no sul dos Estados Unidos estava liberada. Ele conhecia todos as pessoas importantes. Seu relacionamento com distribuidoras independentes sólidas, como a B&G Equipment, no Mississippi, e a Smith & Turner, na Geórgia, foram fundamentais para o sucesso inicial da Tigercat, ajudando a jovem empresa a formar uma rede de distribuidoras em todo o sudeste dos EUA.


Na comemoração do 25º aniversário da Tigercat, em 2017, a esposa de Dick, Janet, tira uma foto dele em frente à primeira máquina Tigercat produzida.

Na comemoração do 25º aniversário da Tigercat, em 2017, a esposa de Dick, Janet, tira uma foto dele em frente à primeira máquina Tigercat produzida.


“No início de 1994, ainda não tínhamos ninguém responsável pela administração de vendas”, diz Tony, presidente da Tigercat desde a fundação da empresa até 2017. “Acho que eu mesmo estava fazendo esse trabalho, então fiquei feliz ao conhecer um candidato em potencial com experiência em máquinas florestais. Ofereci o emprego a ele logo depois da entrevista, mas eu não tinha certeza se ele teria um desempenho melhor em uma função de serviço ou vendas. Ele começou em fevereiro de 1994. Logo ficou evidente que ele havia estabelecido boas relações de trabalho com algumas distribuidoras nos Estados Unidos e grandes empresas do setor florestal no Canadá, como a Great Lakes Paper, em Thunder Bay.”

Bobby Miller, principal distribuidor e vice-presidente da Smith & Turner, conheceu Dick em 1986, quando a empresa se tornou uma distribuidora de skidders VME. De acordo com Bobby, “Dick era o nosso representante. A primeira coisa que me lembro do Dick são nossas idas a reuniões e exposições. Enquanto uma grande multidão falava em voz alta e contava histórias, Dick permanecia em pé, com os braços cruzados. Apenas ouvindo. Sei que parece bobo, mas me perguntava o que ele fazia. Só mais tarde descobri que ele aprendia mais ouvindo o que estava sendo dito, em vez de entrar na conversa.”


Um líder para o marketing

Don Snively, gerente regional, trabalhou com Dick por anos. O relacionamento de ambos se estendeu aos esforços da Tigercat em exposições, que nos primeiros anos eram eventos quase heroicos. Nos anos 90, a Tigercat era uma empresa pequena que se mostrava de forma grandiosa para competir com algumas corporações monstruosamente grandes — que, ao contrário da Tigercat, possivelmente tinham orçamentos enormes para participação em exposições e muitos funcionários. Eu me lembro de algumas das primeiras participações em exposições. Nós tínhamos que fazer tudo por conta própria e todos trabalhavam muito duro. Dick era um grande motivador. Também me lembro de que ele era o cara das ideias. Em seguida, ele e Don organizavam tudo e transformavam as ideias em realidade.

Ele também tinha outros tipos de ideia. O proprietário e CEO da Tigercat, Ken MacDonald, costumava priorizar o envio de muitos funcionários às grandes exposições. Na Expo Atlanta, em 1999, Dick quis aproveitar isso e pediu a todos para que vestissem camisas temáticas da Tigercat, nas cores laranja e preta, muito chamativas. O Georgia World Congress Center, o prédio da CNN, o MARTA e todo o centro de Atlanta fervilharam com o que parecia um mar de bandeiras laranjas e pretas que caminhavam e falavam. Não foi nada sutil, mas muito efetivo.

Don se lembra de dirigir um motorhome alugado, mas não muito seguro, com Dick de Ontário a Quebec para a DEMO 1996. Em dado momento, quando Don estava descendo a 401 em alta velocidade, ele ouviu o som de uma serra. Era Dick na parte de trás cortando algumas cunhas de madeira para reforçar a segurança da janela do motorhome.


EDIÇÃO 54 ABRIL DE 2021 | 29 Na comemoração do 25º aniversário da Tigercat, em 2017, a esposa de Dick, Janet, tira uma foto dele em frente à primeira máquina Tigercat produzida. Dick se misturando aos locais na cidade de Quebec durante a DEMO 1996.

Dick se misturando aos locais na cidade de Quebec durante a DEMO 1996.


No caminho de volta para casa, o motor começou a apresentar problemas. Dick removeu a tampa interna do motor e enfiou uma chave de fenda no carburador. A situação piorou. Uma nuvem de fumaça preta se espalhou pela cabine e o teto ficou cheio de fuligem. Muito cara-de-pau, Dick disse: “Vamos comer cachorro-quente?”. Claro que não se pode mais usar ferramentas elétricas em veículos em movimento e os carburadores não são mais utilizados, mas Dick era dos velhos tempos.

Dos velhos tempos ou não, Dick teve algumas ideias de publicidade inovadoras e modernas. As propagandas da indústria madeireira eram um tanto conservadoras há 25 anos, geralmente consistindo na imagem de uma máquina e várias cópias. Enquanto a Tigercat se esforçava para aumentar a participação no mercado com uma linha de produtos em constante expansão, Dick teve a ideia de mostrar uma imagem de página inteira de um interruptor de luz com apenas duas palavras, “Just Switch” (Fique ligado).

“Dick tinha boas noções de marketing”, lembra Suzanne Cline, vice-presidente de finanças aposentada da Tigercat. “Eu me lembro de ter ficado muito surpresa quando cheguei à minha primeira exposição madeireira em Richmond, Virgínia, em maio de 1996. Assim que entrávamos pelos portões principais, bem à frente, no centro, ficava o estande da Tigercat. Bandeiras e faixas ondulavam com a brisa e várias máquinas estavam em exibição. Quando perguntei ao Dick como ele havia conseguido um lugar tão central, ele disse que ninguém o queria, pois ficava ao lado das serras elétricas, o que podia causar muito barulho. Dava a impressão de ser uma exposição exclusiva da Tigercat.”


Equipe de exposições da Tigercat, em Richmond 2002, exibindo as famosas camisas nas cores laranja e preta. Elas duraram vários anos. (Dick é o quarto a partir da direita)

Equipe de exposições da Tigercat, em Richmond 2002, exibindo as famosas camisas nas cores laranja e preta. Elas duraram vários anos. (Dick é o quarto a partir da direita)


Um ótimo mentor

Ele adorava a Ford. Teve um Bronco e depois dois Mustangs. Ele geralmente usava uma jaqueta NASCAR em seu trajeto diário de uma hora de St. Thomas para Brantford. Ele chegava no mesmo horário todos os dias, poucos minutos depois das 7h30. Não importava o tempo, que poderia ser horrível naquele trecho da rodovia no inverno. Como lembra Ron Montgomery, gerente de vendas no Canadá: “Ele gostava de dirigir no inverno para o trabalho e chegava todas as manhãs a tempo porque sempre tinha os melhores pneus para a estação”. Não era nenhum segredo. Ele sempre usava pneus Blizzaks.

Dick tinha uma maneira única de ver o mundo. “Durante o trajeto, ele analisava a economia pelo que observava na indústria de caminhões”, diz Ron. “Ele examinava a quantidade deles na estrada e ficava de olho no estoque quando passava pelas várias distribuidoras de caminhões. Suas previsões estavam quase sempre certas.”

Ron e Dick se conheceram no final de fevereiro de 1995. “Entrei no que deveria ser nosso escritório compartilhado em 86 Plant Farm Boulevard, em Brantford.” Esse era todo o departamento de vendas da época: um escritório com duas mesas, uma na frente da outra. “Dick era um homem de poucas palavras. Alto, confiante e sempre olhando para você com calma, sempre ouvindo. Quando ele falava, as pessoas ouviam.”

Ron continua, “Desde o início, quando eu encontrava pessoas com quem Dick havia trabalhado ao longo dos anos, notei o quanto ele era conhecido e respeitado no setor. Dick foi um grande mentor, pois me ajudou a entender a indústria e aprender sobre nossa concorrência ao compartilhar seu enorme arquivo de histórias dos competidores. Ele compartilhou histórias e experiências sobre a época em que trabalhou na Clark e na Valmet. Eu me lembro de ficar entusiasmado com a venda de alguns feller bunchers 853E para Spruce Falls, em Kapuskasing. Dick mais tarde compartilhou comigo fotos de seus dias na Clark, que mostrava uma grande frota de skidders novos, ao longo da rodovia, com destino a um dos campos de Spruce Falls.”

Kevin Selby trabalhou com Dick por sete anos na função de coordenador de vendas dos EUA e assumiu o cargo de Dick após sua aposentadoria. “Tenho certeza de todo mundo que conheceu Dick concordará com isso: o silêncio constrangedor em conversas cara a cara ou por telefone era uma das suas características.”, diz Kevin. “Ele tinha muito conhecimento e estava mais do que disposto a ensinar e compartilhar com qualquer pessoa disposta a aprender. Mas não vou mentir, foi um desafio descobrir como ajustar minhas estratégias ao me comunicar com Dick.”

Kevin relembra seu primeiro dia de trabalho em 1999. “Eu nunca vou esquecer. Cheguei um pouco mais cedo e Dick já estava no escritório. Acho que interrompi sua rotina de antes das oito da manhã. Depois de um breve olá, sentei-me em silêncio esperando alguma conversa e orientação. Passei todo o meu primeiro dia sentado no escritório de Dick, grande parte dele em silêncio, ouvindo suas discussões por telefone ou conversas com colegas. Lembro que voltei para casa naquela noite pensando que Dick não gostava da minha presença. Porém, depois de algum tempo sentado, logo descobri que ele era um verdadeiro profissional e um cavalheiro. Ele foi meu mentor e sou grato pelos sete anos de trabalho sob sua liderança. Certamente dou a ele todo o crédito pelo meu conhecimento e crescimento no negócio.”


Um homem de muitas realizações

Dick foi membro do 1968 Ontario Championship Brier Team. Suzanne Cline relembra as palavras de Jim Waite, um ex-companheiro de equipe de Dick. “Ele disse que Dick era um jogador de curling excepcional quando mais jovem. Seu objetivo era ganhar o campeonato da província e competir no Canadian Brier pelo St. Thomas Curling Club. “O Brier”, explica Suzanne, “é como o Superbowl do curling no Canadá. Ele ganhou o campeonato em 1968 com a equipe Don Gilbert.” Dick prontamente encerrou sua carreira nas competições de curling após essa vitória, afirmando que havia alcançado seu objetivo.

“30 anos depois, no evento anual Tigercat Bonspiel, Dick acrescentou o troféu Tigercat à sua série de realizações no gelo”, continua Suzanne. “Este dia divertido contou com a presença de muitos funcionários, poucos deles com experiência no curling. Sugeri a Dick que ele jogasse e, por fim, ele concordou.” Dick riu quando descobriu que ele e Suzanne, uma das poucas jogadoras experientes da Tigercat, estavam no mesmo time. “Eu não tinha o nível de experiência de Dick, mas tinha ganhado alguns campeonatos.”


O legado da Tigercat

Dick usava jeans às sextas-feiras e era o faz-tudo no escritório no começo. “Ele trazia suas ferramentas quando havia algo para adicionar ou consertar”, lembra Ron. “Lembro-me de ajudá-lo a instalar um filtro duplo de água na cozinha. Tubo de plástico? Nem pensar. Dick foi atrás de tubulação e conexões de cobre. Ele fazia a coisa certa logo na primeira vez. Ao longo dos anos, ele compartilhou muitas histórias de projetos de construção de casas.”

Ele também gostava de desenvolver pequenos distribuidores. A estrutura de propriedade era diferente nos primeiros dias da Tigercat. Havia muito mais pequenos distribuidores e operações de loja única, assim como havia muitos mais fabricantes de equipamentos. Várias pessoas com quem conversei acreditam que Dick achava que tinha o papel-chave de alimentar e desenvolver essas lojas da melhor maneira possível.

“Quando ele veio para a Tigercat, eu estava começando a trabalhar em vendas”, diz Bobby Miller. “Dick sempre pareceu ter uma queda por distribuidores menores como eu. Ele nos ajudava na obtenção de máquinas quando não achávamos que seria possível.” Dick era um grande fã da NASCAR. Bobby relata que na década de 1990, quando Rex Smith (cofundador da Smith & Turner) ainda estava vivo, “Rex o carregou para Dawsonville para as instalações de corrida de Bill Elliot. Ele mencionaria isso de vez em quando durante anos. Eu vi Dick no 25º aniversário da Tigercat e falei com ele. Depois disso, não conversamos até poucos dias antes de ele falecer. Foi na segunda-feira depois que Chase Elliot (filho de Bill Elliot) ganhou o campeonato da NASCAR. Meu celular tocou. Era Dick. Ele disse que estava assistindo à corrida e se lembrou de quando veio para a Geórgia e visitou a loja de Bill Elliot. Ele tinha ligado para saber como estávamos. Conversamos e relembramos o passado por um tempo. Sempre pensarei em Dick Ronald como um grande homem. Acho que ele tinha muito orgulho de fazer parte do legado da Tigercat.”

“Apesar de ser um homem de poucas palavras, ele era um comunicador eficaz”, diz Tony. “Ele conduzia os negócios de forma eficaz e com a máxima integridade.” Dick ajudou a definir o que a Tigercat é hoje. Ele será lembrado como um pioneiro e um legado duradouro da Tigercat.